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Comunicação Corporativa muito além da tecnologia
Anelisa Maradei
5/10/2016 9:22:00
Anelisa Maradei é Diretora da A.Maradei Comunicação

As pessoas que atuam na área de comunicação, hoje, estão cada vez mais bem preparadas. O desafio é imenso e interdisciplinar. Minha caminhada, por exemplo, envolveu nada menos do que 18 anos só entre ensino superior e pós (stricto e lato sensu), fora cursos de reciclagem, congressos, etc.

Dialogando com um médico, em encontro com amigos, ele se lamentava da longa jornada para a formação profissional em sua área. Mas, contei a ele que isso não era um privilégio da Medicina e que, Comunicação, cada vez mais, é coisa séria em uma sociedade midiatizada......

O fato é que o desafio de Comunicar e planejar a Comunicação em instituições públicas e privadas nunca foi tão grande. E a tarefa jamais esteve tão desalinhada e controvertida. Em termos práticos, o mercado parece andar mais adiantado que a Universidade. Muitas vezes, a academia parece estar assustada com o ritmo do aluno.  No mundo corporativo, o jornalista apavora-se com a sabedoria, agilidade e competência técnica do blogueiro informal, e por aí vai....

Mas, cabe aqui uma reflexão. O que é Comunicar? O que é informar? O que é conhecimento? O que é informação? Preservar a Comunicação é, antes de tudo, olhar para sua dimensão humanista. O essencial da comunicação não está do lado das técnicas, dos usos ou dos mercados, mas sim em colocá-la a favor do cidadão e da democracia, seja no âmbito cotidiano, corporativo ou público.

Dominique Wolton, sociólogo francês, em sua obra É preciso salvar a comunicação, nos lembra que se: “Sonhou-se com uma aldeia global; encontra-se a cacofonia de Babel” na atualidade. Segundo o autor, no passado, não conseguíamos nos comunicar por falta de técnicas apropriadas e, hoje, apesar de tantas alternativas tecnológicas, não nos compreendemos melhor.

Assim, pensando no âmbito do dia a dia de nossas atividades, o que é prestar um serviço de qualidade no campo da Comunicação Corporativa?  Programar o disparo de um release com as mais modernas ferramentas de distribuição de informação, ou realizar uma boa consultoria de relações públicas ao cliente? Não abriria mão das ferramentas tecnológicas, mas elas não nos bastam, e é importante que não percamos isso de vista.

Escrevo este artigo depois de inúmeras conversas com amigos jornalistas, assessores de imprensa, professores. Diálogos com jovens em salas de aula, que estão nas agências fazendo o que há de mais moderno em tecnologia digital. Entretanto, o que percebo é que a mesma exclusão digital que opera nas ruas, nas casas de baixa renda, nos bancos, opera nas Universidades, no mercado de trabalho, nas empresas. E precisamos estar atentos a isso, a fim de trabalharmos com a tecnologia a nosso favor, abandonando o discurso de vertentes extremistas, sejam elas tecnófilas e tecnófobas, e partindo para a prática assertiva do uso das ferramentas a favor do homem.

A tecnologia aí está para nos favorecer. Entretanto, vejo o entusiasmo dos profissionais querendo implementar várias ferramentas de comunicação on-line nas empresas em que trabalham, sem aumento salarial ou aumento de estrutura e de recursos em contrapartida. Fico tomada de perplexidade por verificar que esses profissionais não percebem que para se ampliar a entrega precisa-se também ampliar-se a estrutura: investimento, equipamento, mão de obra, sob pena de haver um acúmulo de trabalho e a exploração do capital humano nas organizações. O virtual não elimina o real. Para se produzir um conteúdo e colocar uma mídia social no ar é preciso produzir vídeos, é necessário de fotógrafos, redatores, gestores de conteúdos, de mídia,  programadores, etc. 

Além disso, não podemos querer entregar conteúdo on-line para quem não tem acessibilidade. Fui convidada a fazer há pouco tempo um projeto para uma indústria farmacêutica, multinacional, que estava se consolidando no Brasil. Queriam implementar conteúdo on-line para se comunicar com os funcionários. Só que apenas 100 dos cerca de 1500 funcionários tinham acesso ao computador, os que eram do administrativo, gerentes e diretores. Os demais, do chão de fábrica, não faziam parte dessa realidade. Ou seja, projeto inclusivo ou devaneio tecnológico?

 Assessores de Imprensa também andam em desespero. Cansados. Perdidos em meio aos desajustes do mundo real e virtual.  Encontrei uma amiga que pediu afastamento de uma das maiores agências do Brasil depois de quinze anos de atividades. Diagnóstico: Síndrome de Burnout, um distúrbio de caráter depressivo, precedido por esgotamento físico e mental intenso, cuja causa está intimamente ligada à vida profissional.” Meu chefe se comunicava comigo por whatsapp em horários surreais”, dizia ao contar como chegou ao estado de depressão.

Será que é mesmo esse o uso ideal que temos a fazer dessa maravilhosa ferramenta? Eu mesma tenho clientes que se utilizam do whatsapp para falar de trabalho em horários bastante inoportunos, correndo, inclusive, risco de se envolver em processos trabalhistas com seus funcionários.

Enfim, dentro dessas articulações e ponderações, avanço em minhas pesquisas no Campo da Comunicação. Ciente, logicamente das inúmeras oportunidades que a internet e as novas tecnologias nos trouxeram, das quais sou defensora e não abro mão. Espero embarcar no próximo semestre para a Europa para finalizar meu doutorado,  em busca de mais aprendizado sobre o uso das tecnologias, as formas positivas de apropriação das redes sociais on-line para o ambiente corporativo, ativismo na internet e possibilidades de interação on-line.

Acredito nas novas tecnologias. Mas, não perco o bom senso. O ser humano sempre será a primordial perspectiva de quem quer fazer uma boa Comunicação. Antes dos anos 90 eu atuava tendo o ser humano como foco. Continuarei com essa perspectiva. E procuro ensinar e realizar projetos que contemplem essa visão.

 

 

Anelisa Maradei é Diretora da A.Maradei Comunicação, Professora Mestre da Universidade Metodista de São Paulo e da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, Doutoranda em Comunicação Social pela UMESP. 



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