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Crise no jornalismo: o que fazer?
Rivaldo Chinem
11/6/2019 8:47:00
O jornalismo está mergulhado em uma crise diferente de todas as que já teve. Não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade e de governança

O jornalismo já não é mais o que era antigamente e as pessoas e as sociedades se relacionam de forma distinta hoje, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso. O que fazer? Como lidar com essas novas bases de mediação social? Como manter os provedores de informação jornalística quando muitas pessoas se acostumaram a consumir bens simbólicos aparentemente de graça? Como manter o jornalismo num tempo em que outros canais oferecem informações que aparentemente podem substituir o noticiário convencional? As perguntas são muitas, e consequência direta da gravidade da situação. O jornalismo está mergulhado em uma crise diferente de todas as que já teve. Não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade e de governança. É uma crise multidimensional. Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afeta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afetado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente. Estamos não só falando de uma indústria que gera bilhões, mas também de um mercado de trabalho de milhões de pessoas, de uma atividade social que cumpria uma função única e de um importante escudo da democracia, da cidadania e da civilização.

Observações de Rogério Christofoletti, professor de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina e um dos principais pesquisadores da área hoje no Brasil, coordena o Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), e que acaba de lançar o livro “A crise de jornalismo tem solução?”, pela editora Estação das Letras e Cores. Sua entrevista a Pedro Varoni, publicada no Observatório da Imprensa.

“O jornalismo precisa mostrar à sociedade que ainda é muito útil e imprescindível e que ninguém faz o que ele costuma fazer. As redes sociais não informam as pessoas. Os grupos de WhatsApp aprofundam a desinformação. O jornalismo precisa voltar a perseguir suas vocações e demarcar claramente o que pode oferecer aos cidadãos, às sociedades.

Os números têm mostrado quedas sucessivas de assinantes de TV a cabo e isso afeta os canais de notícia 24 horas, por exemplo, mas também os de jornalismo esportivo. Ao mesmo tempo, vemos o surgimento forte de produtos jornalísticos criativos, distintos e desafiadores. O Meio, por exemplo, é um produto, uma newsletter diária. Não é um site ou portal, é uma carta de notícias que nos chega a cada manhã. O Nexo aposta no jornalismo de contexto e tenta nos explicar o cotidiano com menos pressa e mais alargamento de perspectiva. Aos fatos e Lupa se encarregam de fazer checagem de dados. The InterceptPública e A Ponte oferecem grandes reportagens, aprofundamento, crítica e monitoramento de quadrantes da sociedade civil. Isso sem contar as dezenas de iniciativas locais de meios que tentam se consolidar pelo Brasil afora. Ao mesmo tempo, temos meios de comunicação tradicional ressuscitando as newsletters e apostando em podcasts, por exemplo.

Eu me preocupo muito com o jornalismo local por uma razão muito simples: a crise do jornalismo acontece em meio a uma crise de confiança nas instituições. Isto é, a democracia está sendo questionada, o sistema de representação política está sendo questionado, a escola e a ciência estão sendo colocados contra a parede. É uma época muitíssimo complicada porque nossos sistemas de crenças parecem estar se dissolvendo diante de nossos olhos. Isso acontece no nível macro e no micro.

O jornalismo local tem uma grande importância no enfrentamento dessas crises porque ele nos permite criar contextos de diálogo e ação. Como a escala é menor, as medidas a tomar podem ter impactos mais concretos e visíveis. Imagine uma cidade de 20 mil habitantes que tem um jornal impresso diário, duas emissoras de rádio e um site local de informação. Ora, com uma configuração dessas, com profissionais cobrindo os problemas da cidade, acompanhando a rotina da prefeitura e do comércio local, e monitorando a Câmara de Vereadores e a segurança pública, teremos uma sociedade com mais potencial de enfrentar seus problemas próximos. Note que eu propus um cenário com pouca competição interna nos segmentos, mas que não é um monopólio. Um único jornal impresso e um único site. Duas pequenas emissoras de rádio. Mas cada um deles fazendo bem o seu trabalho, disputando atenção e anúncios, ou formas de financiamento do negócio. Isto é, meu exemplo se vale de um cenário de não-monopólio.

A meu ver, um meio local de informação não deve se preocupar em explorar comercialmente aquele território, mas trabalhar para que aquela comunidade evolua e se desenvolva de forma a permitir que aquele jornalismo subsista. Diálogo, senso de comunidade, bom humor e empatia também podem ser úteis. Acredito que possamos criar e manter meios de comunicação assim em diversas paisagens. Afinal, estamos dispostos a abrir mão do que o jornalismo nos proporciona? Eu penso que ainda não”.

 

Rivaldo Chinem é autor vários livros, como “Terror Policial” com Tim Lopes (Global), Sentença – Padres e Posseiros do Araguaia” (Paz eTerra), “Imprensa Alternativa – Jornalismo de Oposição e Inovação” (Ática), “Comunicação Corporativa” (Escala com prefácio de Heródoto Barbeiro), “Marketing e Divulgação da Pequena Empresa” (Senac) na 5ª.edição, “Assessoria de Imprensa – como fazer” (Summus) na 3ª. Edição, “Jornalismo de Guerrilha – a imprensa alternativa brasileira da censura à Internet” editora Disal,   Comunicação empresarial – teoria e o dia-a-dia das Assessorias de Comunicação” , editora Horizonte, “Introdução à comunicação empresarial”, editora Saraiva, “Comunicação Corporativa” editora Escala com prefácio de Heródoto Barbeiro ; e "Comunicação empresarial - uma nova visão da empresa moderna" (Discovery Publicações).



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